Desvendando o mundo das tunas

Written by on Dezembro 28, 2018

Desvendando o mundo das tunas
Autor: ESCS Magazine
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Muitas vezes são associadas à praxe, ao traje, ao estilo de vida boémio. No entanto, adotando uma perspetiva diferente, é possível perceber que existe algo mais dentro deste mundo. Muitos já ouviram falar das tunas, mas poucos são os que têm noção do trabalho e dedicação que estes estudantes desenvolvem ao longo de vários anos letivos – não só nos respetivos cursos, mas também na música, em simultâneo.

“Não sabia tocar quando entrei. Hoje, diria que quando pego num bombo, tarola ou cajon já vou fazendo mais do que tocar aquilo que aprendi especificamente. Em termos de voz, aprendi a ser mais afinada”, explica Joana Ribeiro. Com 26 anos, dos quais cerca de 6 foram passados na tuna, é a atual magíster da MTA (Magna Tuna ApocalISCSPiana – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas). Para além disso, é também líder do naipe das percussões.
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Magna Tuna ApocalISCSPiana em atuação no 24º aniversário da escstunis

foto: escstunis / número f

A tuna é uma “banda” constituída por estudantes e ex-estudantes universitários que atuam pela sua universidade / escola. Tocam instrumentos de cordas (guitarra, cavaquinho, bandolim, contrabaixo, em algumas faculdades violino ou guitarra portuguesa), de sopros (flauta transversal, saxofone em certas faculdades ou clarinete), de percussão (bombo, cajon, pratos e pandeiretas) e de fole (acordeão). Em cada naipe existe um líder, que o gere e ensina as músicas.

Todos cantam, para além de tocar. Assim, há necessidade de agrupar em palco pessoas com o mesmo naipe de voz – algumas mais agudas, outras mais graves. Existem também naipes de espetáculo, que executam coreografias com pandeiretas ou estandartes durante as músicas.

“É o que cativa mais o público. Tudo cativa, mas quando vem um naipe de espetáculo é quando o público vibra. Não só puxam pelo público, mas também ajudam a puxar pela tuna.” João River tem 27 anos e é membro de duas tunas – a ArquitecTuna (da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa) e a Estudantina Universitária de Lisboa (tuna masculina que não pertence a nenhuma faculdade em específico). Na FAUL há cerca de 5 anos, João é líder de naipe de guitarras, mas não esconde admiração pelos naipes de palco. “Gosto especialmente da graciosidade do estandarte em músicas mais calmas.”

As coreografias dos porta-estandartes são performances com o manejar de uma bandeira – o estandarte da instituição – de forma a criar uma espécie de dança, ou simplesmente uma mostra de habilidades, dependendo da música que soa.

Quanto ao outro naipe de performance, as coreografias consistem em saltos acrobáticos ritmados. Por outras palavras, é a junção de um elemento visual, uma espécie de dança, ao ato de tocar pandeireta. “Associo muito a pandeireta ao conceito de tuna. As pandeiretas fazem o contacto mais direto com o público”, conta a magíster.

“Para além de toda a qualidade musical que apresentas em palco, há músicas que ficam com outro «brilho» com uma atuação dos estandartes ou das pandeiretas. É um momento de show-off, mas é positivo. É um complemento à atuação,” acrescenta a veterana da MTA.

Pandeiretas e estandartes costumam ser premiados em festivais, tal como solistas ou a coesão musical da tuna, entre muitos outros aspetos. Os festivais são organizados por uma tuna, que convida as restantes (normalmente 4) para entrar no concurso. Para dinamizar o espetáculo, a organizadora atribui um tema ao festival. Algumas tunas costumam mesmo fazer pequenos teatros em palco, incidindo no tema, enquanto outras optam por músicas de interlúdio, estejam a organizar o concurso ou a participar nele.

“As nossas atuações em festival ultimamente têm sido feitas em torno das músicas mais fortes que temos – Capitão Romance [adaptação, de Ornatos Violeta], Medley: He’s a Pirate [instrumental, baseado no tema do filme Piratas das Caraíbas], A Morte Saiu à Rua [adaptação, de Zeca Afonso] e o nosso original, Lisboa, Que Brilhas.” João River é também membro do conselho artístico da Arquitectuna, que trata de produzir e ensaiar todo o espetáculo. “Depois, consoante o tema, escrevemos uma história e vamo-la contando, com música, durante a atuação.”

Em termos de organização, existe uma direção musical (ou conselho artístico), um(a) magíster e, por vezes, uma direção mais focada em gestão interna / logística.

“É uma carga de trabalho que nunca imaginaste que ias ter na tuna”, admite a magíster da Magna. “Em algumas tunas, é apenas uma função de RP, mas na MTA é também quem trata de relações com outras instituições e logística.”

Para as DMs, costumam ser eleitas pessoas mais experientes em termos de conhecimento musical ou de produção de espetáculos. No caso da Tuna Académica do ISCTE (TAISCTE) não existe uma diretora musical, mas sim uma maestrina.

“As funções são as mesmas, ambos dão a cara pela direção musical. Só que na TAISCTE chama-se maestro ou maestrina ao líder da direção musical, seguindo a lógica de que quem dirige uma orquestra também tem esse nome”, explica-nos Rita Branco.

A atual maestrina tem 25 anos, dos quais 4 são de tuna. Em termos musicais, tem o 8º grau de conservatório de música (o grau máximo). “Tentamos contar uma história nos interlúdios das atuações, sempre com música de fundo. Com essa história procuramos enviar uma mensagem, que irá depender do tema. No fundo, damos sempre um pouco de nós e recebemos sempre de volta, o que é recompensador.”

Para além de música, a tuna é uma fonte de muito convívio. Não só dentro das tunas, mas também na medida em que as várias tunas estão sempre em constante contacto e convívio em festivais.

A TAISCTE em visita a Portalegre, no XII Portus Alacer, festival da Enftuna (Escola Superior de Saúde de Portalegre)

“É algo cliché e provavelmente aquilo que toda a gente diz, mas diria que é uma família. Funciona mesmo como tal. Tens a tua casa, a tua família e depois a faculdade acaba por se tornar uma segunda casa. Para muitos a tuna é a segunda família”, admite Joana.

Para a maestrina da TAISCTE, acaba por ser um “cantinho de refúgio.” “As pessoas são muito diferentes. Mas mais do que as diferenças, importam as semelhanças. É um sítio onde fazes música e amigos para a vida, e daí surgem ainda mais amigos e ainda mais música. É um ciclo muito bom, que todos nós sentimos.”

A música, o convívio e as memórias que estas pessoas vão criando acabam por ser fundamentais para que estas instituições funcionem e se mantenham ao longo dos anos.

“Não sei definir ao certo o que significa. Mas sei que é um grande amor e não consigo imaginar-me sem ela.” A definição de River é curta, mas incide diretamente naquilo que é o sentimento de um tunante.


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