Inquietações Urinárias

Written by on Novembro 12, 2018

Inquietações Urinárias
Autor: 8.ª Colina
Conteúdo retirado automaticamente da página do núcleo 8.ª Colina
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Ilustração: Nuno Amaral

Sempre percorreu por mim uma inquietação pela urina. Ironicamente essa inquietação faz percorrer por mim urina. Um contra-ataque perspicaz que me faz admirá-la.

Ela sempre me acompanhou, desde os meus primórdios. Quando a ansiedade me assaltava o organismo, lá vinha a urina ziguezagueando pela minha perna direita. Ela deu-me a conhecer as fraldas: proteções super fofas de urina, o urso de peluche do desaguamento renal. Com isto, aprendi que a urina, a suscitar sentimentos, apenas deve suscitar empatia, por ser uma excelente desculpa para o uso desta confortável indumentária. São elásticas e permitem uma maior mobilidade em casos de chichi – não é à toa que os bebés são as criaturas mais alegres do mundo.

Felizmente deu-se a invenção da casa de banho pública. Uma divisão criada para, em conjunto, celebrarmos a urina. Onde ela é a rainha, dominando o odor e o metro quadrado, tanto fora como dentro da retrete. Com todo este aparato, o ser humano desenvolveu um afeto enorme por estes espaços, algo que nos levou a conceber uma lista mental (e extremamente privada) de casas de banho preferidas, que gere as nossas necessidades fisiológicas consoante a distância às tais casas de banho.

Temos, de alguma forma, lugares onde aconchegamos melhor a nossa uretra. Onde ela se sente mais livre para desanuviar após um dia trabalhoso. O tanque pode estar cheio, mesmo a entornar, mas decidimos sempre ir urinar à casa de banho que fica no piso três, apenas se o urinol do canto esquerdo estiver disponível, porque esta casa de banho aqui ao lado não é suficientemente digna para receber o néctar do nosso mictar – o nosso méctar.

De facto, algumas casas de banho revoltam-nos, e com razão. As pessoas não têm modos. Algo que nos levou a conceber uma lista real (e nada privada) de pessoas que desejávamos ver cobertas de urina.

Durante uma viagem de carro deixamos de ter esse problema. Regamos a árvore mais próxima com desfaçatez acrescida. Aliás, até nos sabe bem refrescar as pendurezas. Urge dentro de nós um espírito indomável e renascemos, porque urinar no mato é uma das sensações mais libertadoras que existem – atingimos o nirvana vesical.

Ilustração: Nuno Amaral

Constato também que o género masculino criou o urinol. Um marco importante na história mundial da urina. Uma verdadeira obra de arte que funcionou como xeque-mate na disputa entre homens e mulheres. Estamos no trono da urina: somos tão competitivos que tivemos de idealizar todo um novo reservatório suficientemente merecedor de receber a sagrada urina masculina: a água benta dos líquidos que não são a água benta.

Há anos que anseio pela resposta das mulheres. A minha perna direita que o diga.


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