Ermida dos cabelos brancos à acne

Written by on Maio 30, 2018

Ermida dos cabelos brancos à acne
Autor: 8.ª Colina
Conteúdo retirado automaticamente da página do núcleo 8.ª Colina
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Uns chamam-lhe “ermida”, outros, de um prisma mais alargado, batizam-na de “quinta” e há ainda quem a intitule de “pátio d’água”. A designação é um mero detalhe quando evocamos uma parte sagrada de Montijo. O espaço tem uma forte carga simbólica para a população, independentemente da idade.  

Num dia de sol, em que cheira a peixe nas ruas da Avenida dos Pescadores, o branco das paredes da capela brilha. Numa rua em Montijo, defronte ao museu do Pescador, vai vivendo a antiga quinta do Pátio de Água, a Ermida de Santo António. As escadas para os atuais gabinetes da Junta de Freguesia de Montijo chiam, ao passo que a luz trespassa os vidros cristalizados. As vidraças são alvo de manutenção, uma vez que os “aldeanos” – designação coloquial de montijenses – não pretendem ver ser degradada uma mescla de símbolos que tornam ao espaço a condição de património indiscutível da cidade.

Não é uma quinta qualquer, nem somente mais uma sucessão de contornos arcaicos que, recentemente reabilitados, esbanjam brilho e eloquência. São histórias que falam mais alto do que decorações. A ermida, como é conhecida popularmente, era o centro da Vila de Aldeia Galega – hoje cidade de Montijo –, na zona mais movimentada da terra. A sua construção foi empreendida no século XV, no reinado de D. João III.

As imagens religiosas são previsíveis dentro da quinta e, sobretudo, no interior da capela. O que concerne o título de cenário instigante à ermida são as cores, os cheiros e os sentimentos que, por infelicidade, não podem ser transpostos para letras.

A lápide exibe uma história renascentista: “Esta igreja mandou Edificar Duarte Roiz Pimentel Fidalgo da casa de El-rei d. João o 3º chefe dos pimenteis deste reino como 2º neto de Rodrigo Afonso Pimentel e de sua mulher D. Inês Vasques de Melo, filha de Martim Afonso de Melo Alcaide Mór de Évora e Santarém.” Acrescenta: “Esta ermida, que esteve interdita, mais de um século, foi mandada reconstruir de 1940 a 1953, por A. Santos Fernandes, oficial da armada.”

Foram várias as transformações que ocorreram ao longo dos tempos, quer mutações físicas do local, como alterações no nome da rua que cerca a quinta. Avenida de Santo António – primeira toponímia da rua – mudou de designação várias vezes. Já se chamou António José de Almeida, Nuno Álvares Pereira e há 50 anos foi batizada de Avenida dos Pescadores, nome que se mantém inalterado.

Reduzida na primeira metade do século XX, a quinta era composta por casas, marinhas, pinhais e um pomar de laranjeiras, onde muitos empregados se entregavam ao trabalho, ficou reduzida uma área consideravelmente mais diminuta. Uma capela, uma ermida e, ainda assim, um mito.

“Criancinhas aos montes”

Maria do Rosário Almeida, de 83 anos, lembra-se “como se fosse hoje” da história que a falecida mãe, Elísia do Rosário, lhe contava para a assustar: “A minha mãe chegava à minha beira e falava-me da quinta do Montijo. Aquela de uns senhores com muitas posses.” Vive na região de Pegões, freguesia do concelho de Montijo, mora sozinha, mas só dentro de quatro paredes. Por fora, vive circundada das amigas. E é o café O Moleiro onde Maria do Rosário narra os mitos que incidem sobre a atual Quinta do Pátio d’ Água.

“É claro que a minha mãe exagerava, e eu ainda exagero mais só para ver as minhas amigas ficar de cabelos em pé. Segundo consta, as famílias que foram ocupando aquela quinta tinham como tradição enterrar os familiares debaixo daqueles pomares.” Maria do Rosário não tem explicação para a parte mais macabra da história, a dos cadáveres de crianças: “Era o que diziam. E a miudagem também falava disso no meu tempo. Eram enterradas muitas crianças lá, criancinhas aos montes. Na altura, morria-se muito cedo…”

O “sabe-tudo” da Quinta do Pátio d’Água, António Resina Bastos, foi presidente da Comissão Política do Partido Socialista de Montijo, durante 30 anos. Também assumiu o cargo de vereador da câmara municipal e foi membro da Assembleia Municipal de Montijo, ao longo de quatro anos. Atualmente não ocupa nenhum cargo político, mas mantém-se sempre alerta em todos os temas que envolvem a sua cidade. No período enquanto vereador da Câmara Municipal de Montijo, foi feita uma escavação arqueológica, que tornou possível a identificação de onze enterramentos e um ossário”. António Resina Bastou confirma, pelo menos, “um feto, quatro crianças e um adulto do sexo masculino”.

O ano de 1919 marca a reconstrução da Quinta. António Santos Fernandes, antigo proprietário, pediu ao jovem arquiteto Porfírio Pardal Monteiro para dar uma nova vida à quinta. O projeto visava conferir à ermida uma estrutura típica de casa portuguesa. Porfírio Monteiro por António Santos Fernandes viria a ser um mote para uma carreira de arquitetura muito ativa em prol do Estado: teve um papel importante na restruturação das instalações do Instituto Superior Técnico, Arco do Cego e a Estação do Cais do Sodré. António Santos Fernandes, faleceu já muito velho. Porém, a antiquíssima quinta não morreu com o proprietário ele. Renasceu noutro formato. O Estado concedeu-a à Santa Casa de Misericórdia de Montijo, com a finalidade de transformar o espaço num lar de idosos: o Lar de S. José.

 Ao serviço da cultura

Se há homem que é conhecedor do recinto cultural do Pátio d’Água é o atual presidente da Câmara Municipal de Montijo, Nuno Canta, que reside literalmente, ao lado da ermida. O engenheiro agrónomo de 52 anos esteve presente na mais recente inauguração da reabilitação da Ermida de Santo António. A 27 de junho de 2017, proferiu as seguintes palavras: “Abrimos hoje de novo as portas da Ermida de Santo António para que continue a ser um lugar de história e de memória dos montijenses”.   

Como não há almoços grátis, a ermida já tirou dos cofres da autarquia cerca de 190 mil euros, desde que Nuno Canta iniciou o mandato em 2013. O autarca defende afincadamente o investimento num projeto com esta “vastidão e grandiosidade”: “Há que lutar por projetos como este. Há uma preocupação da parte da câmara por manter a tradição e por batalhar arduamente pela cultura. Ainda por mais quando se fala de um local histórico com tamanha vastidão e grandiosidade.”

Nuno Canta convidou a montijense Fernanda Fragateiro, nascida no bairro histórico Pescadores, para fazer uma escultura no seu interior.

A Ermida de Santo António, cujo nome do santo está aglutinado ao peixe, respira salubremente. Os anos passam, e não é por isso que uma mera parcela de terra é entregue ao abandono. A Quinta vai sendo atualizada ano após ano. Os jovens convivem perto dela – reúnem-se no Pátio D’Água depois das aulas. Os mais velhos, sentam-se no banco de mármore que fica à porta da Junta de Freguesia. A ermida nunca passa de moda, pois dos cabelos brancos à acne, todos passam por ela.


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