A vida e morte de Elliot, o santo Incel

Written by on Outubro 13, 2018

A vida e morte de Elliot, o santo Incel
Autor: 8.ª Colina
Conteúdo retirado automaticamente da página do núcleo 8.ª Colina
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  1. Isla Vista

Uma toalha encharcada em sangue e um rolo de cozinha gasto na casa de banho. Os corpos de Wang, Hong e Chen disfarçados com toalhas e peças de roupa. Uma faca e um martelo naquele pequeno apartamento em Isla Vista. 180 minutos antes do massacre, um portátil iluminava um vídeo no Youtube com o título “vingança”.

O rapaz saiu de casa e caminhou calmamente até um Starbucks próximo. Pediu um café e trancou-se no carro estacionado em Seville Road, uma estrada que personifica a Califórnia suburbana. Eram oito e meia e o sol já se tinha posto. O brilho do computador incandescia as feições triangulares do rapaz enquanto enviava por e-mail as suas derradeiras palavras, o manifesto que revelaria o porquê de tudo aquilo.

“Porque é que as coisas têm de ser desta forma? Tenho a certeza de que essa será a pergunta que todos farão quando o Dia da Vingança terminar. De facto, porquê? Porque é que eu fui condenado a viver uma vida de miséria e inutilidade enquanto os outros homens puderam viver os prazeres do sexo e do amor com uma mulher?” – escreveu antes de conduzir até à fraternidade Alpha Phi em Embarcadero del Norte, perto da Universidade de Santa Bárbara, na Califórnia.

O rapaz bateu à porta da fraternidade várias vezes, mas ninguém respondeu. Irritado, empunhou a arma e assassinou duas estudantes. Katherine sofreu oito tiros e foi atingida na cabeçasofreu sete tiros, maioritariamente no peito e na zona pélvica.

Regressou ao BMW preto e conduziu até uma mercearia local, onde disparou várias vezes contra a fachada da Isla Vista Deli Mart. Christopher, um estudante dentro da loja, colapsou depois de sofrer um tiro no peito.

Em contramão na estrada sul de Embarcadero del Norte, o rapaz atropelou um peão e atirou sobre dois outros, falhando o alvo. Deu a volta com o carro na estrada Del Playa e começou a disparar contra os polícias que o começaram a perseguir.

Seguiu para este, em direção a Sabado Tarde e atropelou um skateboarder e dois ciclistas, antes de colidir com o passeio na intersecção entre a estrada Del Playa e a rua Camino Pescadero. Os agentes da polícia rodearam o veículo e caminharam com cautela até à porta do condutor. O rapaz estava morto. Disparou uma bala contra o crânio.

Sete pessoas morreram naquele final de tarde de Maio de 2014.

  1. Toronto. 1997

“Apercebi-me de que as pessoas falavam sobre as virgens solitárias e troçavam dos adolescentes que não namoravam.”. As palavras de Alana ecoam com determinação no estúdio da BBC, enquanto recorda como a adolescência não tinha sido fácil para ela. “Levou-me muito tempo. Amadureci tardiamente.”

Em 1997, na ausência de plataformas como o Facebook ou o Tinder, Alana começou a pensar se, como ela, existiam adolescentes solitários que ainda não tinham amadurecido o suficiente para começar a namorar.

Foi a partir dessa ideia que surgiu o site Alana’s Involuntary Celibacy (Celibato Involuntário da Alana), que tinha como objetivo unir e acolher todos aqueles que se sentiam sós e partilhar problemas e soluções num espaço simples e seguro.

“Sentia, de vez em quando, um pouco de raiva vinda de homens que não faziam ideia porque é que as mulheres não queriam nada com eles. Mas, no geral, era um sítio acolhedor”, disse, reforçando que conheceu um casal que começou a namorar no site e que hoje em dia continuam juntos.”

E assim, em Toronto, numa altura em que as canetas rosa felpudas e os porta-chaves estavam na moda, surgiu a primeira comunidade Incel.

“A palavra Incel costumava significar qualquer pessoa, independentemente do género, que se sentia só e que nunca tinha tido relações sexuais ou que não estava numa relação há muito tempo. Infelizmente, este já não é o sentido da palavra”.

De uma palavra surgiu um movimento. O termo Incel foi rapidamente adotado por uma subsecção da “manosfera”, um conjunto de movimentos motivados por valores misóginos que engloba ativistas dos direitos masculinos, artistas de engate e homens heterossexuais que se recusam a ter relações sexuais por crenças políticas.

Homens que se identificam como Incels tendem a reunir-se em fóruns online, como o 4chan, Reddit (entretanto banidos) e o SlutHate. O elo de ligação é o ódio pelos Chads e pelas Stacys do mundo, homens e mulheres sexualmente ativos e que se interessam apenas pela aparência física.

Para além de Stacys e de Chads, todo o universo Incel é povoado por uma gíria própria: mulheres são apelidadas femoids ou roasties e homens de aparência mediana são chamados normies.

A solidão que Alana queria combater no site evoluiu para ameças violentas dirigidas até àqueles que demonstram empatia. “Querem-nos apoiar porque têm medo de ser a nossa próxima vítima. Patético. Não podem salvar os Incels. Acabou”, afirma um usuário.

O movimento é alimentado por vários blackpills, uma coleção de verdades que só eles dominam e que a sociedade não conseguirá nunca engolir. Um exemplo disso é a crença de que todos os homens estão a ser enganados pela namorada, que o estará a trair com um “macho alfa”.

Quinze anos depois de criar o site, Alana estava numa livraria a folhear uma revista feminista quando ouviu falar pela primeira vez de Elliot Rodger.

  1. Elliot

O primeiro amigo verdadeiro de Elliot Rodger nos Estados Unidos foi uma rapariga chamada Maddy Humphreys. Os dois cresceram juntos a brincar na escola agrícola onde Elliot se matriculou depois de a família, natural de Londres, emigrar para Los Angeles. As famílias de Elliot e Maddy costumavam encontrar-se em churrascos e jantares. “Na altura era um rapaz de cinco anos a brincar com uma rapariga da minha idade como qualquer outra criança.”

A parte favorita do dia de Elliot era as tardes passadas no parque Serrania com Maddy. O verde preenchia o horizonte com alguns escorregas e baloiços a rasgar sorrisos nos rostos das várias crianças que lá paravam depois da escola. Elliot tinha de pedir ao pai para o empurrar no baloiço, isto irritava-o. Os outros miúdos, muitas vezes mais novos do que ele, não precisavam de ajuda. “Foi aí que percebi a minha falta de aptidão física”, relembra.

A casa de Maddy tinha um quintal gigante onde Elliot vivia aventuras como as que via nos filmes produzidos pelo pai – Peter Rodger foi diretor assistente de vários blockbusters como o filme Hunger Games. Os dois cresceram também a ver a saga The Land Before Time, um filme de animação que explora as aventuras de um grupo de dinossauros de diferentes espécies e como lidam com as diferenças uns dos outros.

“Às vezes quando ia para casa dela, encontrava outras raparigas e brincava com elas também. Surpreendentemente, não tinha problema nenhum em interagir com raparigas naquela altura. Com seis anos brincava com raparigas, desconhecendo o horror e miséria que o sexo feminino iria infligir em mim mais tarde. Hoje em dia, essas raparigas tratar-me-iam como lixo, mas naquela altura éramos iguais. Que ironia amarga.”

Elliot estava quase a fazer sete anos e a vida era justa e feliz. O estatuto social de uma criança era alcançado consoante o quão bem jogava os jogos populares na altura. No caso de Rodger, a vasta coleção de cartas de Pokémon era, certamente, uma vantagem. “Tinha muito orgulho na minha coleção, que incluía algumas cartas brilhantes. Gostava muito de as mostrar aos outros rapazes. A carta com que mais carinho guardava era um Charizard”. Elliot lembra-se bem do dia em que encontrou aquele Pokémon de fogo. Durante uma manhã, a mãe comprou-lhe uma saqueta e ele rasgou o plástico num misto de entusiasmo e medo de lhe calharem cartas repetidas. Mas não! Lá estava o Charizard. “Parecia o dia mais feliz da minha vida e eu enchi-me de alegria! Corri e saltei por toda a casa”.

“A infância foi divertida, mas quando um rapaz chega à puberdade todo um novo mundo se abre… um mundo feito de prazeres como o sexo e o amor. Os outros rapazes experienciaram isto, mas não eu… custa-me dizer isto.”

  1. Um restaurante italiano em Chicago

Jack Peterson conheceu uma rapariga no Tinder e levou-a a jantar num restaurante italiano na baixa de Chicago. Falaram um pouco sobre tudo e especialmente sobre eles.

Até recentemente, Jack identificava-se como um Incel – tinha aderido ao movimento não pelo ódio às mulheres, mas pela camaradagem masculina. Travou laços de fraternidade com outros homens online que se sentiam frágeis e feios, como ele, e isso deu-lhe força.

Desistente do ensino superior e com um acesso à internet constante, não parava, porém, de se sentir sozinho e diferente do mundo. Através de fóruns no 4chan, Jack, na altura com 11 anos, encontrou consolo para a depressão e ansiedade, marcas deixadas pelo bullying que sofria na escola. Aquele era um espaço seguro.

Ao entrar na adolescência, Jack começou a passar semanas sem sair de casa. Foi nessa altura que descobriu a comunidade de artistas de engate: um grupo de homens que, através de métodos pseudo-psíquicos, partilham os detalhes e movimentos que usam para seduzir raparigas. Foi aí que Jack entendeu que, se o namoro é um jogo, ele estava a meio de ser despromovido para uma liga inferior.

Com 17 anos tornou-se um ávido leitor do fórum r/incels, no Reddit. De olhos postos nas histórias de solidão e rejeição de outros homens, Jack sentiu-se atraído por toda essa comunidade e começou a usar a palavra Incel para se definir.

“Sempre senti que havia algo de errado comigo porque todas as outras pessoas estavam a ter sexo e a namorar, e eu não conseguia”, suspirou Jack ao Huffington Post.

Em novembro de 2017, o Reddit baniu o thread r/incels porque encorajava a violência contra mulheres. Nessa altura, os únicos amigos de Jake eram os membros da comunidade Incel. “Não tenho namorada ou amigos, mas pelo menos tenho-vos a vocês”, escreveu no site incels.me, uma plataforma para onde migrou a comunidade. Em cinco meses escreveu 7,202 publicações.

Um estudo no incels.me revelou que existem pelo menos 300 participantes ativos, sendo que 66% têm menos de 25 anos. Ademais, quase dois terços afirmaram não ter amigos e mais de metade admitiu considerar cirurgias plásticas. A maior parte disse também sofrer de depressão ou algum tipo de autismo.

Mas, no meio de desabafos intensos sobre tristeza e solidão, Jake apercebeu-se de um novo mundo à frente dos olhos, um universo de celebração da violência contra mulheres e de luta contra os direitos do sexo feminino. “Mais uma roastie que teve aquilo que mereceu”, escreveu um usuário sobre o homicídio de uma modelo. Outro escreveu uma longa lista de leis que beneficiariam os Incels na sociedade, que incluia banir as mulheres de votar e de trabalhar. Jake respondeu a este último: “as leis estão bem. Nós é que somos demasiado feios para termos sucesso”.

Este abrir de olhos para Jake foi a gota de água. Num vídeo na sua conta pessoal de Youtube, explicou que pediu ao dono do site para banir a sua conta permanentemente porque já não se revia na comunidade. Atrás dele, pósters do filme Eyes Wide Shut e Eraserhead decoravam o quarto.

  1. Divórcio e fuga

“Pouco depois do meu sétimo aniversário, a notícia chegou. Acho que foi a minha mãe que me disse que ela e o meu pai se iam divorciar.” O divórcio atingiu-o como uma faca empalada no tórax. Meses antes, a mãe de Elliot tinha-lhe garantido que tal coisa nunca iria acontecer. “Foi um evento que mudou a minha vida. O meu pai ficou na nossa casa grande antiga e a minha mãe mudou-se para um pequeno apartamento.”

A família de Elliot desmoronou-se. “Lembro-me de chorar. Todos os momentos felizes que passei com a minha mãe e com o meu pai eram agora uma memória distante.”

A casa da mãe de Elliot tinha uma internet veloz e Elliot começou a passar horas seguidas à frente do computador a jogar World of Warcraft. “Foi o início de um período muito solitário da minha vida, no qual todas as minhas interações sociais eram através de vídeojogos”.

Estava demasiado assustado para aceitar esta nova realidade. Este isolamento social surgiu na mesma altura em que Elliot estava a entrar na puberdade. Os olhares de uma criança alegre estavam agora mergulhados num abisso de solidão. “Parei de me preocupar com a minha vida e com o meu futuro. Parei mesmo de pensar sobre o que as outras pessoas pensavam de mim. Escondi-me no mundo seguro e confortável do World of Warcraft”.

Enfrentar a primeira semana da escola secundária foi uma experiência devastadora para Elliot. Costumava vestir-se com calças cáqui e pólo, e tinha um olhar tímido como se a qualquer interação estivesse pronto para se fechar na sua carapaça. Para os outros que nunca o tinham visto na vida, foi uma presa fácil. “Sofri várias vezes de bullying, mesmo sem conhecer os rapazes de lado algum. Estava demasiado fechado no meu casulo e a puberdade fazia com que parecesse e soasse como um puto de 10 anos”. Se o físico de Elliot não atraía nenhuma rapariga, certamente atraía bullies como traças numa chama.

Elliot não aguentava mais. Na manhã antes da segunda semana de aulas começar, a mãe encontrou-o a chorar convulsivamente. Suplicava-lhe para não voltar àquele sítio horrível. “Tinha tanto medo que me sentia fisicamente doente. Não parei de chorar até chegarmos à entrada da escola, e a minha mãe cedeu.”. Acabaram os dois num café chamado Gelson´s e, depois de terminarem de falar, a mãe de Elliot apercebeu-se de que não era capaz de levar o filho de volta para a escola.

“Eles decidiram tirar-me da escola naquele momento e fiquei cerca de um mês a recuperar e a descansar em casa, maioritariamente a jogar online.” A dor e sofrimento tinham acabado, mas não sem deixarem cicatrizes no pensamento de Elliot.

Um estudo da Universidade Warwick e da Universidade Duke mostra como as crianças que sofreram de bullying crescem com maior probabilidade de enfrentarem problemas de saúde mental, como um aumento no risco de suicídio e de pensamentos suicidas. Consequentemente, estas crianças têm cada vez mais dificuldades em formar amizades ou estabelecer contacto humano, trancando-se na sua bolha de stress e ansiedade.

  1. 16 primaveras

“A minha vontade sexual estava no seu pico naquela idade. Sempre que chegava da escola tinha de me masturbar. A vontade era demasiado grande. Durante as minhas sessões de masturbação elaborava fantasias no meu pensamento. Imaginava que tinha uma namorada loira e gira com quem fazia amor apaixonadamente, quase como se tivesse uma namorada imaginária. Nunca contei isto a ninguém, nem falei alguma vez com os meus pais sobre o meu desenvolvimento sexual”.

Com 16 anos, a impaciência de Elliot crescia com o amadurecimento do corpo. Tinha nojo de se olhar ao espelho e cada olhar de rejeição ou riso de gozo de uma rapariga era mais uma facada na própria auto-estima. A Califórnia respirava os ares de primavera.

Numa noite morena, o pai de Elliot levou-o a jantar num restaurante com uma família amiga, os Bubenheims. O filho mais novo dos Bubenheim chamava-se Leo e tinha 12 anos, e a seu lado sentava-se Nicole, uma rapariga da mesma idade de Elliot. Entre olhares atrevidos e toques nervosos, Leo e Nicole não resistiram um ao outro e começaram a beijar-se. Elliot sentiu a barriga às voltas, uma raiva despertou-se no peito e sufocou-o de inveja. “Eles sabiam que eu estava a olhar para eles com inveja. Ali estava eu a ver um rapaz 4 anos mais novo do que eu a experienciar tudo aquilo que eu sempre quis. Aposto que o cabrão tirou grande prazer da minha inveja.”

Nos momentos mais solitários, Elliot sentia um arrepio na espinha motivado pelo excesso da hormona norepinefrina no cérebro. Ao responder ao isolamento social, o corpo de Elliot enrijecia como uma folha de tabaco ao sol. As noites eram passadas em branco com os olhos presos no ecrã do computador.

Em 2012, um grupo de cientistas holandeses descobriram que apenas a ideia de exclusão social era suficientemente forte para baixar a temperatura normal do corpo.

  1. Alpha Dog

Com 21 anos, Elliot entrou na Universidade de Santa Bárbara e arrendou um quarto a 16 minutos a pé do campus de Isla Vista com outros três estudantes.

Em Isla Vista, Rodger imaginava-se a viver a vida que merecia. O pensamento levava-o tantas vezes para uma zona costeira onde era acarinhado por várias raparigas giras e loiras. As praias vibrantes de Santa Bárbara seriam o ponto final da adolescência solitária. Pouco antes de se mudar, Elliot ficou viciado no filme Alpha Dog, que conta a história real de Nicholas Markowitz, um miúdo de 15 anos que foi raptado por traficantes de droga. Antes de assassinarem Markowitz, os sequestradores mostraram ao rapaz as festas aceleradas e luxuosas da zona de Santa Bárbara. Seguindo as pisadas de Markowitz, Elliot acreditava que iria tornar o imaginário boémio do filme na sua realidade.

Mas os problemas em integrar-se e em socializar despiram o sonho e Rodger acabou por passar a maior parte do tempo fechado no quarto. “Em Santa Bárbara, passei quase todo o tempo no meu quarto. Comecei a investir nas minhas opiniões filosóficas sobre o mundo. Questionava o porquê das coisas serem assim. O mundo é tão macabro e eu tinha tantas perguntas.”

Na sua conta pessoal de Youtube, Elliot publicou um vídeo com o título “A minha reação ao ver um casal na praia. Inveja.” Nele questionava porque é que o rapaz que observava tinha uma namorada e ele não. “Enquanto observava todos aqueles rapazes arrogantes a passear com as namoradas… só queria atropelá-los com o Mercedes do meu pai. Literalmente esmagar as suas vidas como polpa, tal como me fizeram a mim”.

A raiva e o ódio pelas mulheres contagiava a pele de Elliot como uma praga. Eram elas que escolhiam ser íntimas com os Chads e não com ele. “A própria existência das mulheres é a causa de toda a tortura e sofrimento da minha vida. Nunca iria poder abraçar uma namorada, sentir o seu calor e amor. Nunca iria poder fazer amor e adormecer num sono profundo com o corpo sensual dela ao meu lado.”

No antigo r/incels, um membro do grupo escreveu uma publicação onde afirmava que os Incel deviam ter poder legal para violar mulheres se assim o entendessem. O mesmo membro explicava que “nenhum homem esfomeado deveria ser preso por roubar comida e nenhum homem sedento sexualmente deveria ser preso por violar uma mulher”.

Elliot englobava este direito ao sexo nas suas filosofias sobre o mundo. “As mulheres são animais e pensam como animais. São incapazes se ter morais ou pensar racionalmente. São completamente controladas pelas suas emoções macabras e pelos vis impulsos sexuais”.

“As mulheres não deviam ter o direito de escolher com quem acasalam e reproduzem. Essa decisão devia ser feita por homens racionais e inteligentes. Se as mulheres continuarem a ter direitos, apenas vão perturbar o avanço da raça humana, porque vão escolher ter filhos com homens estúpidos e degenerados. Há criatura mais maldosa do que a mulher?”

“Porque é que as coisas têm de ser desta forma? Tenho a certeza de que essa será a pergunta que todos farão quando o Dia da Vingança terminar. De facto, porquê? Porque é que eu fui condenado a viver uma vida de miséria e inutilidade enquanto os outros homens puderam viver os prazeres do sexo e do amor com uma mulher”. É assim que termina o manifesto de Elliot Rodger, que a 23 de Maio de 2014 saiu do seu apartamento com duas facas, uma pistola Glock 34 e duas pistolas Sauer P226 e assassinou seis pessoas, suicidando-se após o massacre.

Epílogo

Após a morte de Elliot Rodger, a comunidade Incel ficou dividida. Alguns ficaram perturbados com a chacina, o que os levou a abandonar os sites e fóruns, mas outros viram em Rodger um exemplo a seguir, nomeando-o Supreme Gentleman, uma espécie de santo.

A 23 de Abril de 2018, Alek Minassian publicou no Facebook um texto a elogiar as ações de Rodger e a prometer continuar a sua missão até ao fim. “A revolta Incel começou! Vamos eliminar todos os Chads e Stacys! Honrem o Supreme Gentleman Elliot Rodger”. Horas depois, Minassian atropelou 10 pessoas com uma carrinha alugada no centro de Toronto.

Um membro da comunidade Incel afirmou que “por cada mulher morta e que tenha entre 18 e 35 anos, vou beber uma cerveja em comemoração”.

Quatro anos passaram desde o ataque em Isla Vista, mas a popularidade de Rodger não diminuiu, tornando-se uma figura de culto no mundo Incel. Os vídeos de Elliot arrecadaram mais de doze milhões de visualizações e a sua conta pessoal de Youtube tinha 50 mil inscritos antes de ser eliminada.

Ilustrações: Joana Jorge


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